Contando até Infinito

Crônicas de amor e ódio. Ou amores e dores crônicas.

A Música de Olhos Tristes

A brisa estival corria melancólica como os sinos das 18h, ressoando cidade a fora. Lucas sentiu o calor morno e pálido abrandar sua face enquanto caminhava pelo centro preguiçoso da cidade, em uma tarde de sexta-feira. Como de costume, aquele era o dia oficial da esbórnia, contudo o jovem não era tão adepto da agitação noturna, preferindo a languidez de bares sombrios nas esquinas do centro histórico. Passando ao lado do barzinho que abriria duas horas depois, Lucas viu um cartaz colado à porta, anunciando a apresentação daquela noite. Não tinha foto, apenas o nome da cantora: Perpétua. Escrito de azul royal em letras caprichadas e veludosas, o nome que continha o infinito brilhava sobre o fundo negro. Lucas achou o nome curioso, esses nomes que na verdade são palavras, palavras com significados próprios que não significavam pessoas, de modo que o dono ou a dona do nome deveria passar a vida tentando corresponder à forma como foi batizado ou batizada. O jovem até se indagou se era nome artístico, mas por fim concluiu que tal informação não era necessária para confirmar a si mesmo que naquela noite estaria no bar.

O lugar estava longe de estar cheio, cochichos murmurados se mesclavam ao som de uma música que escorria do rádio enquanto o show não começava. Era o tipo de clima que Lucas gostava: calmo, aconchegante, obscuro, podia conversar à vontade com seus amigos e sentia conforto ao mesmo tempo, o conforto de quem se encontra no ambiente ao qual pertence. Quando o show começou, houve pouca alteração no lugar, a não ser pela voz musical que deixara de ser a voz gravada para ser ao vivo. Lucas estava enredado no papo com seus colegas e pelo vinho que sorvia aos poucos, por isso não deu muita atenção à apresentação, mas tampouco atrapalhava-a. Entretanto, de repente sentiu o clima escurecer. À primeira nota sua pele incandesceu levemente, o frio gotejou em sua espinha. Um som de deserto, de passado e solidão… Uma voz abafada e abandonada, com passagens que pareciam aves distantes contra as cordas de violão. Lucas ergueu a cabeça para a mulher que se apresentava no palco. Não era a mulher mais bela que já vira, mas possuía o olhar mais indelével e profundo que já cruzara com o seu. Olhos cristalizados de lágrimas transcendentais em uma face lívida envolta por uns finos fios de cabelo ondulado feito nuvem leve, cujo negro vibrava sob a luz parca e azulada. Aparentemente a música não surtia efeito sobre os outros como surtia em Lucas, como se houvesse nela algo que encontrava ecos no rapaz. Ele ficou hipnotizado por aquele momento de três minutos que pareciam carregados de lembranças imemoriais, soluços e murmúrios, uma história completa que não conhecia fim. O rapaz não conseguia afastar de sua cabeça a questão… O que passara aquela mulher para compor uma música como aquela? Que desalentos, que paixões, que dores vivera para conseguir alcançar o âmago dos sentimentos e externá-lo em forma de arte, sons, daquela forma mesmerizante…?

A música ressoou em seus sonhos aquela noite. Não conseguia ignorar o que havia de oculto naquela melodia, da mesma forma que não conseguia identificar em si mesmo o que o atraía para aquilo. A imagem dos lábios vagamente rosados e finos entoando a música adejava sua visão, a voz langorosa se liquefazia dentro de suas orelhas e o congelava por dentro. Lucas se repreendeu por não ter ido atrás de Perpétua ao final do show, mas se consolava ao refletir que não saberia o que dizer a ela, não poderia, sendo ele um estranho, simplesmente chegar indagando o que se passava por trás daquela música. Qual era a história por trás daqueles sons. Mas Lucas não desistiu. Voltara no bar no sábado, pedindo ao dono o contato de Perpétua, alegando estar interessado em chamá-la para uma apresentação.

– Sinto muito, amigo. Ela estava só de passagem pela cidade, foi embora ontem depois do show.

– Mas não tem como me passar o número dela ou algo assim? Pelo menos eu poderia ver se ela pretende voltar – insistiu.

O homem tragou forte o cigarro, expelindo a fumaça branca com cara de cansaço.

– Ela só deixou a página dela na internet, mas não acho que tenha número de contato.

Lucas anotou o nome da página e logo que chegou em casa, visitou-a. Realmente não havia muitas informações, além de uma bela foto de perfil, onde os olhos cristalinos brilhavam aquosos, e postagens misteriosas de cenários belos e distantes, ou pinturas nevoentas com frases etéreas. Muitas Lucas não conseguia entender, mas lhe passavam uma sensação profunda de solidão e nostalgia, o que só agravava seu interesse na história daquela pessoa. Até mesmo os seguidores da página eram silenciosos. As postagens possuíam dezenas de curtidas, mas nunca nenhum comentário… Todo o brilho velado, o negrume, o silêncio daquela mulher acendiam Lucas. Uma conversa com ela. Era só o que queria. Mas enquanto buscava por ela, só encontrava silêncio. Quanto mais perscrutava suas informações pela internet, mais longe se sentia de descobrir qualquer coisa. Ela deixava um rastro de solidão e mistério. Ela que, pouco antes, esteve há poucos metros de distância, parecia agora inalcançável, intocável, como se Lucas estivesse tentando agarrar neblina com as mãos. Lucas decidiu mandar uma mensagem, elogiando contidamente o show e indagando quando seria o próximo. Mas um curto agradecimento e uma negação foram tudo o que recebeu.

Obrigada. Não estou fazendo shows no momento.

O ponto positivo foi que a mensagem deixara um rastro mais palpável, ela deixara a localização de onde fora mandada. Talvez se a cidade fosse a mais de duas horas de distância, Lucas tivesse deixado estancar ali a sua busca repentina, e assim teria se encerrado essa ligeira obsessão, contudo a mensagem viera de uma cidade vizinha, a qual Lucas chegara de carro em menos de uma hora no dia seguinte, mas sem saber bem o que estava fazendo. Quando chegou, estava sob um céu pesado e cinzento, envolto de lufadas frias de outono fora de época. As fendas azuis que às vezes se abriam no céu eram geladas. Lucas perambulou pela cidade vagarosamente, passeando absorto pelas esquinas sujas, pelos bares pobres, onde, de quando em quando, entrava perguntando se conheciam uma cantora da cidade chamada Perpétua, mas sempre recebendo uma negação abatida. No último bar que entrou, já desgastado e a ponto de desistir daquela busca sem sentido, Lucas iniciou novamente suas indagações, insistindo mesmo após a negação.

– Uma mulher magra, pálida, de cabelos cheios e pretos, batendo aqui assim, mais ou menos – dizia indicando o próprio ombro, mas o dono do bar mantinha a negação, arrancando um suspiro fatigado de Lucas.

– Ei – chamou um sujeito sentado ao balcão. – Seria essa a moça que procura? – disse, indicando uma foto no jornal.

A imagem cruzou os olhos de Lucas com uma luz divina, sob a foto estava o nome dela, ele abriu um sorriso animado – é, é ela mesma! – confirmou. Contudo, o sujeito lhe encarava com um ar soturno, o que fez Lucas descer novamente os olhos ao jornal, procurando o título da seção onde se encontrava a imagem de Perpétua. Há uma ideia geral de que homens escolhem formas mais violentas de tirar a própria vida: um tiro na cabeça ou na boca, enforcamento, saltar de um prédio. Enquanto que mulheres são mais silenciosas e delicadas ao chegar nesse extremo, dando fim a si mesmas através de remédios, venenos, cortando os pulsos… Ou de formas dolorosamente poéticas como o afogamento… O veneno consumiu as veias de Perpétua, de modo que adormeceu sabendo que nunca mais acordaria. Fora encontrada em sua casa, com um vestido longo e preto, caída no mármore da sala ao lado de centenas de papéis recentemente queimados, de modo que seu passado se tornou silêncio absoluto, sua história, suas paixões, suas dores, sendo a lembrança de uma música melancólica, imemorial e carregada pela sua voz marmórea a única coisa que restou de sua existência.

Incógnitas

Dizem que nos sonhos nossa mente transcende nossa pequenez, de modo que alçamos voos inimagináveis, respondemos perguntas que vaguearam pela nossa mente durante todo o dia, despertamos insights que parecem inalcançáveis quando nossa mente está aberta para o mundo exterior, como se o universo que abrigamos fosse infinito, incomparável com aquele que nos rodeia. Dizem que os sonhos podem ser nada mais que uma apresentação distorcida de desejos íntimos, ou uma representação estranha de fatos cotidianos. Símbolos que a nossa mente escolhe ao acaso para associar a lembranças perdidas.

Como quando eu vi o sutiã preto jogado na cadeira, no meu quarto que estava uma bagunça, e ao adormecer, sonhei com alguém o tirando do meu corpo para a cadeira. Ou como quando vi, aleatoriamente, um desenho animado onde os personagens se quebravam inteiros por todo o episódio, mas terminavam intactos. Ao anoitecer, sonhei que o amor quebrava os meus ossos e eu ria, que a vida me dilacerava, mas de pé eu permanecia. Ainda houve aquela vez em que, esperando o sinal abrir para eu atravessar, sob o sol distante e etéreo do outono, um ônibus perfurara o ar à minha frente, sacudindo-me feito furacão, e pela noite eu me vi atravessada pela mera presença de outra pessoa.

Mas, mulher mística que sou, prefiro acreditar na primeira opção. Que nos sonhos somos marinheiros destemidos singrando universo adentro. Um universo completamente desconhecido, insólito, mágico, transcendental, onde retornamos ao todo ao qual pertencemos, mas não por completo, só como uma centelha, de modo que ficamos em uma superfície onde, apenas vagamente, podemos responder às questões universais. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Questões que nos assombram e nos levam a loucura quando nos pomos a pensar demais, mesmo sabendo que não há modo de respondê-las. Questões que me arrastaram a um niilismo desesperador em certo momento de minha vida, antes de eu aprender a me apoiar na futilidade mundana para não perecer na mediocridade da individualidade, da condição humana. Porém, nos sonhos quiméricos e imemoriais, encontro amparo em respostas que flutuam em minha mente, que parecem existir dentro de mim em um lugar que não alcanço de olhos abertos, mas vêm fulgurantes em sonhos nublados. Como quando me vi de frente a uma galáxia inebriante, fulgindo em meio ao negror vazio do universo, e de repente eu soube que não havia morte. Sonhos que me arrebataram completamente…

Como quando sonhei que sabia o porquê você me deixou.

Crisálida

Pérola abriu as portas para a varanda e encarou o céu coruscante. O sol derramava-se pelo azul com um fulgor aveludado, estendendo sobre as plantas sua candência perfumada, seu toque dava vida a tudo sob si. Pérola observou as madressilvas prontas para despertar, coloridas e suntuosas. Nas grades que circundavam o jardim, as crisálidas penduradas fremiam ligeiramente com a brisa, aguardando o momento de abrirem-se. Pérola respirou fundo o ar e regressou para o seu quarto, pois a semana estava apenas começando.

Espelho, espelho meu… Existe alguém mais bela do que eu? Dizia o livro. Pérola olhou de viés para o longo espelho no canto do quarto, imóvel e silente, mas era como se a olhasse de volta. A semana já estava na metade. Pérola hesitou, fechou o livro, seu peito inflou ligeiramente ao dar um suspiro mais profundo e pensativo, mas por fim soergueu-se, pondo-se de pé em frente o móvel de mogno que circundava o espelho.

Feia… Sussurrou uma voz em sua mente.

Ela observou seus óculos de aro grosso que sempre lhe renderam apelidos, alguns quase carinhosos, mas maldosos na maioria. Ela poderia simplesmente escolher um modelo mais discreto, mas ela gostava daquele modelo, sempre achara de algum modo charmoso e gostava de como se encaixava em sua face oval, sobre seus olhos amendoados cor de âmbar. O que fazer? Escolher um mais discreto, afinal? Naquele momento ela considerava tal opção, encarando seu reflexo apático. Em volta do rosto trazido no espelho, uma nuvem de cabelos ressecados flutuava escuramente. Também fora questionada sobre o porquê de não ter um secador de cabelos e uma chapinha em casa, quando então se questionou se era problema grave gostar de seus cabelos anelados. Indagaram também o porquê de não pintar os cabelos, dar-lhes uma cor mais viva, aparentar um pouco de vaidade, e ela apenas se lembrava de ter pensado, na época, que não sobrava muito tempo para isso (ou será que ela simplesmente não se importava?), mas agora ela via-se, em sua mente, pegando o catálogo de telefone e discando para o salão de beleza mais próximo.

Mal arrumada… Repetiu a voz em sua mente.

É verdade que mais de uma vez pensaram que ela pertencia a uma família pobre, pois se vestia tão mal. Não era verdade. Ela apenas dizia ter seu próprio estilo. Ao contrário do que poderiam pensar, Pérola até gostava bastante de roupas, só não tinha muito gosto por aquelas que todos gostavam. Ela adorava saias longas que pareciam flores desabrochando quando ela rodava nas pontas dos pés, gostava do tecido macio roçando pelos seus calcanhares enquanto andava, era quase como o toque da própria liberdade quando suas pernas podiam andar tranquilas e livres sob a saia, ao contrário de quando ela tinha que vestir calças. E shorts, então, nem pensar. Ela detestava. E, veja só, ela não condenava ninguém que gostasse de usá-los, não tinha nada contra, por isso achava tão injusto que tantas pessoas fossem contra o seu próprio modo de se vestir, contra suas saias longas e blusas de gola alta e sobretudos, quando fazia frio. Pérola gostava bastante de suas roupas… Mas agora tentava se lembrar da loja mais próxima de sua casa.

Além disso, é muito estranha… Concluiu a voz em sua mente. Era a voz de um colega de trabalho. Ora… Mas era muito mais do que um colega de trabalho, pelo menos para Pérola. Ela sempre tivera uma paixonite aqui e ali, coisa de criança, mas ela acreditava que dessa vez encontrara a sua alma gêmea. Ele era tão inteligente, eficiente, seu senso de humor era impecável. Pérola tomava para si aquela ideia de não querer alguém para completá-la, dado que era mulher completa, e sim que lhe transbordasse, mas até disso tinha dúvida, pois ela própria já se transbordava, já era demais, já era além. Entretanto, ao conhecer aquele rapaz, ela não teve dúvida de que ele era capaz de fazer algo por ela que, até então, só a arte fazia: ele faria a vida ser mais do que é. Pois a vida ainda era muito pouco para Pérola, mas ele pôde fazê-la enxergar mais cores no arco-íris, mais beleza no pôr-do-sol e poesia na rotina suburbana. Ele conversava com ela fazendo graça e jogando charme e, oh… Ela acreditou que era especial. Que não era só o jeito dele. Ela sempre ignorara as maldades ditas sobre ela, no entanto não pôde sufocar seus sentimentos ao ouvir, atrás da porta, o que ele dissera sobre ela, quando confrontado com o fato de Pérola estar apaixonada por ele.

Feia, mal arrumada, além disso, é muito estranha…

Pérola jogou um pano cinzento sobre o espelho, entraram em guerra, não queria ter que encarar o seu reflexo. Ela caminhou até o vidro da porta fechada da varanda, observando o vento se tornar um tanto mais forte, fazendo-a se preocupar com as crisálidas que ainda não haviam despertado e corriam o risco de serem levadas ao chão pelo vento. Seguiu pela casa adentro até seu olhar ser atraído para uma peça antiga de sua decoração. Era um caderno da sua época de adolescência que perdurara até o início da fase adulta. Começara como uma brincadeira entre amigas, mas acabara se tornando algo muito especial. Pérola se sentara em sua poltrona com o caderno na mão. Lá havia dezenas, talvez centenas, de mensagens deixadas por colegas durante os anos. Algumas se resumiam a assinaturas, outras eram textos que monopolizaram uma página inteira.

“Muito obrigada pelas aulas, sem você eu não teria passado de ano”.

“Você está sempre lá por mim quando preciso, acho que não posso dizer o mesmo sobre mais ninguém”.

A mãe de Pérola, lembrou-se a jovem, sempre dizia que gentileza e bondade eram qualidades preciosas e que a maioria das pessoas não sabia como apreciá-las verdadeiramente. Pensando nisso ela sorrira levemente, pois nunca tivera tais qualidades em falta e não é qualquer pessoa que podia se vangloriar do mesmo. Sim, os desgostos da vida nunca lhe tiraram o tom adocicado, nunca antes lhe amargaram. E sempre sentia algo etereamente cálido e insólito abraçar delicadamente seu peito quando era capaz de ajudar genuinamente uma pessoa. Pensando nisso, sentiu-se um tanto orgulhosa da pessoa que era.

“E aquele trabalho da feira de primavera, hein?”

Aquela mensagem curta arrancara um riso envaidecido de Pérola. Era de um colega não muito próximo da faculdade, mas que sempre a fizera rir, de modo que pudera ouvi-lo perfeitamente dizendo a frase que escrevera, com seu jeito lúdico e distraído. O trabalho em questão fora uma escultura que apresentara para tal festival, deixando suas professoras e professores boquiabertos com seu talento. Sim, Pérola era uma escultora com uma carreira promissora pela frente. Ela não só tinha talento, mas fora capaz de criar o seu caminho e poder trabalhar com o que realmente amava e isso também não era algo que qualquer pessoa podia dizer o mesmo. Pérola ergueu a cabeça, observando algumas de suas esculturas que faziam parte de sua decoração, com suas formas sinuosas e suaves, preenchidas por uma leveza que só poderia ter se originado das mãos talentosas de uma pessoa realmente sensível. Olhando-as, Pérola imaginava quantas outras pessoas poderiam ter, em suas casas, uma pequena parte de seu amor que estava impregnado em cada escultura que fazia.

“Você é uma gênia, mas age como uma de nós. Ou você não se dá conta da própria raridade, ou é boa demais para deixar isso subir a cabeça”.

Pérola levantou-se, vendo que o ocaso já azulava toda a fímbria do horizonte. Quando adormeceu, seus sonhos eram na verdade lembranças vivas rodando em sépia, com sentimentos mais profundos do que apresentaram na realidade. Em um último ato, estava rodeada de espelhos que cirandavam ao seu redor. Olhava-se refletida neles como uma revelação, mas era mais que descobrir-se: era redescobrir-se, metamorfosear-se singelamente. Não que os espelhos pudessem falar, como se fosse Alice no País das Maravilhas, mas era como se lhe mandassem uma mensagem, alegando que não eram seus inimigos, mas sim guias, e então tudo esmoreceu e se desfez em fumaça violácea, até Pérola acordar de seu sono.

A semana terminava. Pérola tocou o pano cinzento calmamente, apresando-lhe uma parte e puxando-a, fazendo-o resvalar até o chão. Olhou o seu reflexo. Seu cabelo continuava bastante ressecado, assim como as roupas continuavam estranhas, ou melhor, estranhamente de acordo com o seu gosto. Não se desfizera de seus óculos, tinha muito carinho por eles. Em suma, continuava a mesma, sim. Não precisava mudar, não queria mudar. Observou o seu reflexo que, talvez, confirmasse as palavras daquele rapaz, mas o que o reflexo não mostrava era toda a gentileza, a bondade, a humildade, o talento, e tantas outras qualidades inefáveis que ela possuía e das quais se orgulhava. Pérola sorriu, pois conquistara mais uma qualidade: autoconfiança. Era uma mulher e tanta, afinal… Por mais que pudessem tentar lhe convencer do contrário. Quando abriu as portas da varanda naquela manhã, o sol morno deleitava-se em seu berço incandescente, nuvens como véus entrelaçavam-se a pipas coloridas, enquanto sob o céu as madressilvas desabrochavam, e junto com elas as crisálidas liberavam uma bela dança de borboletas que ruflavam suas asas sobre o jardim iridescente, livres e completas.

Nem mesmo um toque…

Sexta-feira treze. Noite escura com luzes pálidas bordejando o asfalto da cidade. Dizem que é noite de azar, entretanto as 23h pareciam tilintar como contas prateadas em meio a confluência de pessoas rumando às festas e shows e jantares… Ignorando antigas superstições ou aceitando o risco em prol de possíveis descobertas e experiências inesquecíveis. Como era o caso de Aurora e Raul, mas essa não é uma história de amor. Aurora nada queria daquela noite insólita de Janeiro, não estava a procura de aventuras alucinantes ou encontros predestinados ou possíveis descobertas, mas não é como se pudéssemos controlar essas coisas. Ela apenas queria sair, divertir-se e esquecer os problemas ao som de boa música e do vinho cantarolando em seu interior. Ela realmente não queria conhecer ninguém novo, não queria uma noite especial, por isso não colocou sua melhor roupa ou fez o seu melhor penteado e apenas saiu com seus amigos sob a lua fresca que flutuava no céu umedecido pela chuva recente.

Raul estava ansioso por aquela noite especial. Quando a sexta amanheceu luminosa e instável ele saltou da cama antes do horário habitual, pois o sono havia lhe abandonado. Era sua estreia como cantor, mesmo que fosse apenas um hobbie universitário. Ele iria se apresentar em um bar popular na cidade, onde desde hippies a headbangers se reuniam para celebrar a juventude. Raul era vaidoso, metódico e sensível, por isso antecipara qualquer possível imprevisto, sabendo então como agir em qualquer situação, porque aquela noite deveria ser especial. A chuva estival não o amedrontou, pelo contrário, ele suspirou aliviado quando o rumorejo lânguido da água deslizando pelo céu surgiu duas horas antes do seu show, pois isso garantia que na hora exata tudo já estaria seco novamente, a não ser, talvez, por algumas poças prateadas espraiadas pela rua. Quando entrou no salão cintilante, minutos antes de o bar abrir, respirou aquele ar fremente, absorvendo aquela atmosfera palpitante e excitante, abrindo um sorriso largo que pareceu refletir em todo salão. Cada vez que um novo cliente entrava e se acomodava em algum canto, Raul sentia a balança de ansiedade e nervosismo dentro de si pender para um lado diferente, mas sempre culminando em algo próximo a alegria. As vozes já tomavam conta do bar, preenchidas de vodca e whisky, e agora já era questão de instantes para que sua presença fosse anunciada no palco, por isso, antes que acontecesse, Raul decidira ir até a porta, respirar um pouco do ar fresco. O perfume da noite cobriu sua face lívida, preenchendo seu peito com um sopro macio e cândido. Em meio a pequenos grupos de pessoas que faziam hora antes de entrar, estava uma garota fulgurante… Ele não conseguiu não olhá-la, sentindo todo o seu corpo corresponder àquela visão, enquanto todos os sentimentos que o dominavam até então eram varridos para dar lugar a uma sensação nova. Ela era mais que bonita, ela era uma explosão silente, uma chuva aveludada de pétalas de rosa, ardente, coruscante… Sua mera presença parecia ter o poder de calar o mundo ao redor. Sua sensualidade era sufocante… E ela o olhava de volta.

Quando o show começou Aurora se surpreendeu ao ver que era aquele rapaz quem ia cantar. Ele sentou-se em um banco, apoiando o violão sinuoso em seu colo após ajustar a altura do microfone. Quando sua mão dedilhou as cordas, a melodia resvalou morosamente entre as mesas do bar, como ondas luzentes em meio à cortina obscura e secreta que envolvia o salão. Cochichos não atrapalhavam a atenção sinérgica para o talentoso rapaz no pequeno palco. Sua voz rouca desceu pelos ouvidos de Aurora, inflando seu peito com algo de sensual, sua pele se eriçava como se os dedos que tamborilavam as cordas tocassem diretamente seu corpo. Não fora a bebida que transformara seu sangue em algo candente e inebriante… Sentia que as palavras que a boca dele cantava roçavam seus lábios calidamente. Sentia seu corpo elétrico, sensível em demasia como se simplesmente necessitasse um mero contato que fosse com aquela pessoa misteriosa. Ele cantava com seus olhos baixos, concentrados, brumosos, suaves, culpados… Mas quando os levantou, Aurora os viu olhar diretamente para ela, curiosos e confiantes, como se partilhassem um segredo. Na face dela um rubor leve coloriu as maçãs e então ela baixara os olhos quase tímida, vendo então a luz bruxuleante do bar reluzir em um anel dourado na mão do cantor.

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Pétalas em Dezembro

O sol reluzia contra o escarlate tom de seu cabelo, conferindo-lhe uma nuance de cenoura. Ela é toda vivaz quando fala. De longe eu a observava com o olhar ferino e curioso de quem encontra uma rival. Eu sabia que seus lábios cheios e ruborizados como pétalas de rosa eram os que ele desejava. Eu a observava e tentava vê-la através dos olhos dele. Suas maçãs firmes e sardentas, ela era toda uma pintura viva e vibrante, um arco-íris personificado do qual não se pode afastar o olhar. Era impossível fitá-la sem notar seus mínimos detalhes, como a mania que tinha de arquear a sobrancelha esquerda quando sorria de lado, num semblante desafiador. É como um hábito masoquista, o meu, contemplar aquela que é desejada pelo homem que eu desejo.

Ele é meu colega de turma, sempre fazemos trabalhos juntos e eu tenho essa mania de ver as pessoas como personagens. Na minha vida, ele seria o parceiro ideal… Inteligente e perspicaz, com um muro lhe cercando para impedir que seja uma presa fácil, uma certeza de que não cairá na vaidade de quem é cobiçado, preservando-se para algo que valha à pena. Talvez eu seja sistemática demais, mas há sentimento no meu olhar sobre ele. Há sentimento quando sou atacada pela insônia numa noite de lua azul e abraço meus joelhos, sentada na cama e desejando poder ligar para ele no frêmito da madrugada apenas para ouvir sua voz ensonada e enrouquecida. Pela primeira vez em minha vida, há sentimento.

Por isso não consigo evitar perscrutar a vida da mulher que conseguiu a atenção de alguém que tenta não ceder a ninguém. Há em meu olhar sobre ela uma espécie de depreciação polarizada por uma admiração. Meu narcisismo a despreza quando caio no clichê do “por que ela e não eu?”, mas sou honesta o bastante para confessar meu encanto por ela. Olhando-a de longe, vendo sua saia cor de tomate resistir ao vento no alto do morro, eu vou entendendo um pouco do porquê de ele a querer. Ela é Marjorie, toda flor, macia e suave como seda, corada e impudica como maçã, o fruto proibido, languidamente irresistível como uma trágica canção de amor. Ela é mar… Ondulando feroz no caos do mundo.

Temos algumas aulas juntas, eu e Marjorie, mas nos falamos poucas vezes. Eu provavelmente teria continuado indiferente a sua aura rubra de sonhos quando me procura a pedir alguma coisa, entretanto, desde que percebi os olhares inegáveis e denunciadores dele sobre ela, passei a achar irritante o modo como acentua o “i” ao me chamar Aniiita. Sua voz é efusiva, sua voz é alegria, deflagra no burburinho da sala vítrea de repente, irrompendo agudamente contra todas as outras vozes. Enche-me de desgosto sua leviandade ao fingir-se indiferente ao próprio encanto, quando escolhe tão perfeitamente bem as roupas que realçarão seu charme ruivo. Em volta dela também há um muro fazendo-a inalcançável, e por isso mesmo tão avassaladoramente desejável. Faz você tomar antipatia ao mesmo tempo em que quer sua atenção. No entanto, o muro que a envolve é misteriosamente diferente do que envolve ele. Há nela algo que me intriga e me magnetiza. Seu riso fácil e sua empolgação foram provavelmente o que o fez se encantar. E por isso eu a detesto como uma pedra em meu caminho. Ao mesmo tempo em que não posso negar sua qualidade como personagem, ela é tão autêntica que é demais para esse mundo comum. Eu só não sabia como encaixá-la na minha vida…

Numa mortiça tarde embaçada e tremeluzente de dezembro, onde tudo funcionava transpirando lufadas úmidas de calor etéreo, nós nos encontramos sozinhas na biblioteca, enquanto a grande maioria dos alunos partia de férias. Inesperadamente ela veio até mim como que tivesse a necessidade irreparável de ser ouvida constantemente, de falar, não importasse quem fosse a audiência. Estávamos frente a frente, encostadas cada uma a uma estante de livros, defronte a janela alva e trêmula. O vento corria mansamente através da fremente cortina branca, farfalhando a blusa mostarda de algodão que ela usava sob os longos cabelos cintilantes. Em seus olhos nascia uma luz que pulsava alaranjada, como se seus globos oculares fossem um par de sóis poentes que irradiavam seu fulgor sobre suas sardas incandescentes. O silêncio do ermo da biblioteca nos envolveu como um dossel evanescente, de modo que eu não percebi de imediato – visto o quanto eu a desprezava a ponto de ignorar suas ações – que ela se aproximava de mim morosamente, com um vislumbre de interrogação em sua tez. Com uma ousadia cativante ela me tocou, eu senti o veludo ardente de seus lábios pressionados contra os meus. Durara um instante efêmero que continha um espasmo de tempo secular, causado pela singularidade de seu acontecimento. Ela se afastou com olhos de triunfo e um semi-sorriso de quem afirma me conhecer melhor que ninguém, ao mesmo tempo em que se confessa intimamente.

Não dissemos nada sobre aquilo, o beijo ficou naquela sala e eu o guardei como se guardaria um presente. Quando nos despedimos, trocamos um olhar cheio de segredos e ao que ela se virou, luxuriante e chamejante contra a brisa estival, eu sorri para mim mesma como se tivesse obtido uma conquista. Seus segredos foram revelados. Eu entendi do que se tratava o muro a sua volta, sua doçura ao me chamar Aniiita e no que residia sua aura magnética que me intrigava e me atraía. E mais do que isso, eu sorri porque conquistei o que, secretamente, eu queria realmente, e não ousava admitir. Ela se encaixou perfeitamente em minha vida… E agora, com alguma arrogância, eu a olhava mais uma vez através dos olhos dele. Eu sorria sabendo que ele nunca possuiria dela o que eu possuo. Agora, toda vez que a lua azul me acordar de noite, uma perfumada fumaça escarlate preencherá minha madrugada. Talvez eu seja sim sistemática. E talvez eu tenha interpretado errado o sentimento que havia nesse triângulo… Pois eu a admirei tanto com os olhos dele, tentando entender os sentimentos dele, que tais sentimentos se fizeram meus.

Índigo

A sexta-feira amanheceu com um tropel maior que o costumeiro. Era o som das caixas que empacotamos ontem sendo arrastadas pelo taco. Um sol morno e frágil tremeluzia persiana adentro, sarapintando em fitas de luz o assoalho e cristalizando a poeira que permaneceu imóvel no ar, após a arrumação de ontem. Enquanto eu tomava um café amargo e comia calmamente uma broa caseira, meus pais discutiam sobre quem ficaria por conta da mudança enquanto o outro levava Sarah para a escola. Eu não tinha aula aquele dia, minha escola estava fazendo uma paralisação, por isso acordei uma hora depois do que estou acostumado. Já Sarah precisava estar pronta para ir às onze e meia. Depois de terminar o café, tendo em mente que tudo já havia sido empacotado, eu precisava fazer a última coisa necessária antes de partir de vez: despedir-me dos amigos.

Fui rapidamente à porta e naquele mesmo momento Antônio, o carteiro, e seu filho Arthur, que era da minha idade, atravessavam o portão. Eu cumprimentei os dois com um abraço grosseiro. Antônio bagunçou meu cabelo oleoso, ele ainda agia como se eu fosse menor que ele, mas eu não o culpava, a amizade dele com o meu pai o fazia como um tio para mim.

– Agora que o herói está indo embora, vai sobrar umas gatinhas para mim – caçoou Arthur.

– Cuide-se, Pedro. E apareça de vez em quando para jogarmos uma pelada – disse Antônio, com ar paternal. Apesar de não ter sido a intenção, aquilo também era quase como se estivesse caçoando de mim. Eu era péssimo em esportes.

Quando eu entrei novamente naquela casa que não seria mais o meu lar, a última coisa necessária havia sido feita. Sim, aqueles eram os únicos amigos de quem eu precisava me despedir. É essa a verdade: sou um isolado social. Dezesseis anos e já arrebatado pela vida e sua insignificância. Aquela despedida fora apenas simbólica, não era como se não fôssemos nos ver nunca mais, só seria menos frequente e mais difícil. Eu estava me mudando para o outro lado da cidade, isso significava mudar de escola também, o que aconteceria na próxima segunda-feira. Se fosse outro jovem qualquer, provavelmente ficaria irritado por ser tirado da escola onde estudou a vida toda em pleno terceiro ano, quando todos estão ansiosos em uma harmonia coesa de expectativa pelo baile do terceirão. Mas não era o meu caso, para mim era tanto faz. Eu não participaria, de qualquer forma. Não me interessava, parecia sem importância, sem finalidade, sem uma raison d’être. Aquelas pessoas não me interessavam. Ninguém me interessava. Era como se eu fosse de uma espécie diferente e falasse outro idioma. Nunca conseguia me encaixar. E no mais, certamente ninguém sentiria minha falta ou faria questão da minha presença.

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SOS

Ele era como um astro de rock fracassado vindo direto dos anos setenta. Blusas ligeiramente esgarçadas e calças jeans propositalmente surradas eram o seu look preferido no dia a dia, mas como ele ficava lindo com sua blusa social preta quando a ocasião pedia… Ele adorava filmes e queria fazer o tipo James Dean, mas não convencia. Não era bad boy: era artista. Conhecemo-nos tão tipicamente, cenas que qualquer pessoa conhece tão bem que não vale ser descrita, seria como um replay. Mas o nosso primeiro beijo foi tão inesperado e literalmente doce… Encontramo-nos aleatoriamente em um evento aberto no centro da cidade. Eu carregava em minhas mãos pálidas um sorvete de morango e ele, em suas mãos grossas e bronzeadas, trazia um de baunilha. Ele brincou com a coincidência vespertina. Com seus olhos neblinados e repentinamente charmosos, perguntou-me se minha sobremesa estava saborosa. Eu, ingênua e gentil, questionei se queria provar. Ele encostou seus lábios de baunilha aos meus e nossas bocas gélidas celebraram a festa de sabores.

– Eu queria beijá-la enquanto seus lábios ainda eram de sorvete – brincou.

Um mês depois, em um show de uma banda local em um barzinho que todos amávamos, nós descobrimos o quanto nosso gosto musical era parecido. É sabido que entre casais de longa data isso sempre ocorre. A intimidade e o tempo os tornam parecidos, eles crescem juntos, descobrem o mundo juntos. Mas conosco era diferente: parecíamos esses casais antes mesmo de o ser. Pulamos e rodopiamos ao som de rock and roll dos anos 80, até que, com um apelo piegas e condescendente, a banda voltou um pouco no tempo e tocou SOS, Abba. Não era uma música que me agradava, mas eu conhecia muito bem. Eu sabia que se tratava de uma canção sobre corações partidos. Eu apenas ria e dançava, entrando no clima, quando de repente encarei aquele rosto feito de chocolate mais uma vez… How can I carry on? Cantava a vocalista mulher da banda quando eu mergulhei nos olhos de nuvem dele. A música, repentinamente, fez sentido. Aquela música com a qual nunca me importei, eu a entendi. Se eu o perdesse, como eu seguiria em frente? Foi nesse momento que ele me pediu em namoro.

– Aquele dia eu disse que queria beijar seus lábios enquanto ainda eram de sorvete, mas parece que eles são sempre de sorvete. Quero sempre poder beijá-los – disse ele. Mais de uma vez.

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Entre Paredes

Eu nem me lembro de quando ela se mudou, mas de repente o outro lado da parede começou a conversar comigo. As paredes nessa quitinete são muito finas, então os murmúrios do quarto ao lado não passam despercebidos por mim. Eu, por outro lado, sou uma pessoa bem quieta. Talvez tantos meses morando aqui tenham feito isso a mim, sou propositalmente uma pessoa bem quieta. Ela já não parece ter percebido que nossas paredes se comunicam, por isso não se importa em falar alto ou em ouvir Coldplay a meio caminho do último volume em um domingo de manhã. Mas surpresa foi quando ela deixou tocando Them Crooked Vultures em uma longa noite de sexta-feira… Eu costumava dizer que me apaixonaria por qualquer pessoa que apreciasse Josh Homme tanto quanto eu. Ou que pelo menos seríamos bons amigos. Depois de tudo que me contou… posso dizer que é minha amiga?

Certa vez eu estava saindo de casa pela manhã, era uma manhã gelada de outono. Como eu amo o outono! E ela também estava saindo.  Ela conversava com o dono do prédio, nosso senhorio. Era uma garota muito sorridente, magra e de olhos pretos e pequenos. Parecia ser uma universitária, como eu. Eu cumprimentei o locador e por educação sorri para ela. Ela sorriu de volta com simplicidade. Ela sorriu de volta.

Às vezes eu me sentava no chão, sob efeito de álcool ou qualquer outra coisa que me levasse para as terras distantes de elfos e gnomos e fadas, enquanto não conseguia produzir mais um artigo. A luz do meu abajur cinza iluminava levemente o quarto junto com a lua. Vez ou outra, durante esses momentos, eu a ouvia conversando e rindo no outro quarto. Às vezes ela estava só vendo um filme, outras vezes ela estava bebendo com amigos. Eu ouvia os risos dela e imaginava quais eram as piadas. Acabava rindo também. Ríamos juntos. Por uma noite inteira… Na manhã seguinte, quando vinha o senhorio pegar o aluguel, ela abria a porta para ele enquanto dele eu me despedia. Antes de voltar para dentro do minúsculo apê, eu via seus olhos de ressaca me sorrirem com uma educação cansada e meus olhos vermelhos retribuíam com um cansaço fingido. No céu azul claro havia riscos de nuvens enquanto o sol ia subindo naquela manhã agradavelmente fria. Antes de entrar, encarei o horizonte que carregava em sua fímbria os resquícios da aurora e percebi que ela fazia o mesmo. Ela também amava o outono.

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Uma Carta na Caixa de Madeira

Um homem da minha idade certamente já passou por muitas perdas. Vi familiares adoecerem, filhos zarparem, amigos partirem… Não tenho uma sensibilidade extraordinária, sou um homem simples, superei essas perdas como se espera de uma pessoa comum, não muito profunda, e envelheço com a nostalgia que minha vida dourada me proporciona. Sentado em minha poltrona preferida, no sótão da minha casa na cidade, assisto o sol se pôr através de uma janela empoeirada. Um disco de fogo como uma chama ardente nas colinas longas que somem na fímbria da cidade. Gosto do lume que o fim da tarde ateia no cômodo, o pó flutua na corrente de luz como poeira filigranada. Desde minha infância prosaica sinto-me tocado pelo pôr-do-sol, algo tão clichê, mas eu sou clichê, e ser comum não torna o belo menos belo. E comum é o que minha tarde não é hoje. Só agora, sentado em minha poltrona, consigo digerir o que aconteceu. Ela se foi. Gabriela, tão bela… Tanto tempo se passou desde que a vi pela última vez, contudo, isso em nada ameniza minha tristeza. O passar do tempo furtou-me da memória lembranças preciosas, pensar no quanto perdi com isso me deixa angustiado, mas nunca esqueci por completo aquela que foi a primeira mulher que amei. Crescemos juntos, eu, moleque, enfezava as meninas, mas não Gabriela, pois os dois anos de idade que ela tinha a mais me impunham respeito inabalável, porém era mais por sua inteligência que eu não a chateava. Minha infância cheirava à laranja e maçã e ao perfume que ela, mesmo criança, insistia em usar. Por muito tempo foi o único que não detestei, mesmo sendo doce como mel. Eu gostava de como sua pele negra cintilava ao toque do sol, de como os cabelos cacheados pareciam tão livres. Minha doce e sábia amiga. Sua voz era a mais suave melodia, dizendo-me com suas palavras protetivas “sabia, Marcel, que existem estrelas milhares de vezes maiores que o sol?”, “cuidado, Marcel, essas plantas são venenosas”, para mim, era a pessoa mais inteligente do mundo.

Enquanto crescíamos, mudávamos juntos. Gabriela se tornava uma moça chamativa, um sortilégio melódico de olhos iridescentes. Logo minha inocência se revestia de algo mais intenso. Como criança, amei Gabriela por sua sabedoria, sem questionar o que fazer, pois estar ao lado dela era o bastante e o máximo que eu poderia ter; era tudo o que eu queria ter. Mas ao que eu crescia, passava a amar, além da sabedoria, sua beleza, seu sorriso, sua aura magnética, sua voz musical… A maturidade trouxe-me a noção de que já não bastava sua presença, de que tanto desejo e admiração mesclados não poderiam ser menos que amor.

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Ethel

Os segredos de todo mundo… Até a mais simples das flores tem sua beleza.

Não poderia se dizer que era excepcional. Não havia nada de muito atraente nos olhos arqueados e de um lúgubre castanho morto, ou nos cabelos que ondulavam negros até os ombros. Não que as características em si fossem vulgares ou ordinárias, mas em Ethel não se destacavam, e ela tampouco tentava enfeitar-se. A pele era queimada de sol, um tanto ressecada, mas havia algo de imponente no maxilar largo e nas bochechas cheias, e possuía também uma fronte altiva e delicada. O corpo era delineado por curvas suaves como ventos estivais, e talvez fosse apenas por ser mulher que possuísse algum atrativo, aquele mistério que guarda o coração das mulheres, como que há de se presumir que simplesmente por ter nascido com tal sexo, porções de amantes a perseguem, malgrado não possuir encantos singulares, e se ela não se arruma como uma apaixonada e nem se mostra acompanhada, é porque se encontra em segredo com algum sortudo rapaz. Mas Ethel não tinha nada a ver com tais suposições, sozinha como era, nenhum amante a cortejava. Para que uma mulher se torne protagonista de algo a se contar, sempre se presume que é uma dama de beleza avassaladora. Se não é, pois então que seja encantadora, como que um ser de onde mil luzes irradiam flamejantes, tecendo uma hipnose vertiginosa e arrebatadora, dona de uma inteligência e de mistérios transcendentais que lhe transformam em ícone de admiração. Mas não é o caso de Ethel, mulher simples que é, calma e lânguida, sem reflexões muito profundas ou sorrisos muito fáceis. É como se estivesse sempre muito ocupada organizando a si mesma dentro de si, reclusa dentro de seu interior, e a apatia que despertava não lhe afetava tanto assim. Tivera alguns romances que não duraram mais de um semestre, mas nunca fora nenhuma paixão poética ou amor sufocante. Eram mais flertes que se consumiam na necessidade de se viver alguma coisa e tocar alguma pele e sentir algum fogo, mesmo que a flama surgida fosse mais fria que a própria solidão, pois de alguma forma amores vazios apenas fazem os amantes mais solitários, e bastam apenas para prover a necessidade da carne que nunca se cala. Talvez Ethel fugisse disso, pois sabia que entregar-se a um amor é perder a si mesma de modo à nunca reencontrar o que um dia foi, contudo, não quero imaginar que Ethel seja tão prevenida ou covarde, mais provável que simplesmente não tenha acontecido para ela ainda. Seus olhos não pareciam guardar feridas profundas, não mais do que o necessário para que lhe fizesse madura; não mais que o necessário para qualquer pessoa. Era como se essa mulher fosse feita de vidro diáfano, cristalino, por onde tudo atravessa indolentemente, como se fosse transparente, e ao olhá-la, não se poderia ver nada a não ser o que está além dela. Oh, Ethel, possuis tu um coração? Possuis desejo ou ilusão? És singular ou muitas há de você? Por que o frio em sua pele não te faz nem tremer? Ethel faz qualquer um indagar-se se o seu vazio é melhor do que a dor, se sua apatia é mais digna do que o fogo da desilusão, do desamor e do fim da paixão. Ethel é uma mulher de sorte? Se não é, nós que sentimos à flor da pele, que nos perdemos em luxúria, nos entregamos aos anseios, sentimos as dores dos desejos e das perdas, temos mais sorte que ela? O que ninguém sabe é que quando o céu ameaça a amanhecer, quando nem mesmo o sol surgiu, e o céu é um pesado emaranhado de nuvens lívidas e estrelas matutinas, quando a bruma ergue-se como um acortinado de segredos, e as pessoas dormem tranquilas sem receios, Ethel está em frente o mar, como uma aparição fantasmagórica em seu vestido celeste, com cabelos de nevoeiro e olhos nublados de amor, amante das águas secretas do alvorecer, eterna apaixonada pelo horizonte de fogo da manhã…

Todo mundo tem segredos…